Por que (não) começar pelo texto literário?
Comentário sobre o texto As Ideias fora do lugar de Roberto Schwarz
Abordagem do momento histórico de escrita dos textos literários nas aulas
de literatura do ensino básico e Médio, sempre se iniciou juntamente com a
análise inicial do gênero textual, que precedem a leitura do texto. Essas
diretrizes introduzem no leitor características do estudo para que este filtre
e direcione a leitura, o que não está errado. No entanto, tal método privou a
sensibilidade da trajetória literária dos leitores em identificarem outros
detalhes no texto, em especial, de analisarem com sua própria perspectiva e no
desenvolvimento de crítica ao que estava escrito.
Outro ponto bastante desestimulante
no estudo investigativo, é o fato de que a história que é apresentada nas aulas
introdutórias partem do compartilhamento da análise de macro movimentos de
transformação do período analisado, fazendo parecer que tudo girava em torno de
tais acontecimentos, sem se importarem com a vida cotidiana das pessoas e
aspectos extremamente relevantes individualizadas que compunham o cenário onde
ocorriam estes movimentos.
São essas duas considerações críticas que observo na leitura do texto As ideias fora do lugar escrito por
Roberto Schwarz, que aborda brilhantemente a questão histórica do escravismo no
Brasil e suas raízes na Europa, além dos mecanismos opressores que sempre
existiram em decorrência dos anseios das elites brasileiras em se espelharem
nas tendências europeias e os devaneios dos latifundiários, escravos, do homem
comum e até mesmo da burguesia em serem destinatários da liberdade tão popular
desde a revolução francesa.
Ocorre que, o autor nos deixa um presente enorme quando nos convida a
observar estes mesmos acontecimentos na perspectiva sensível dos autores
literários que presenciaram o período e contribuíram com os mais diversos
textos, que remontam a personalidade e rotina das personagens, ainda que
superficialmente e fictícia, inspiradas nas pessoas da época, sendo estas,
bases riquíssimas para identificarmos fenômenos não contados nos livros, com ou
sem intenção de ocultá-los. Textos estes, que nos convidam para um café na
praça central das memórias de um tempo que pode ser o presente se analisados
com a clarividência do investigador que está despretensioso com objetivo da
leitura e durante esta promove as mais diversas conexões que ele é permitido
por sua mente crítica.
Este texto foi fruto da
atividade aplicada na disciplina de Crítica Literária no curso de Letras-
Português e Espanhol da Universidade Federal da Fronteira Sul, ministrada pelo
Professor Valdir Prigol, o qual solicitou que desenvolvêssemos um comentário sobre
algum dos textos lidos no decorrer do semestre.



